“As gotas de água que caem do céu são lágrimas, minha pequena. Lágrimas de tristeza. Dizem que são vertidas dos olhos dos próprios anjos”.
Olhando para a janela, imaginou se assim seria. Havia certa melancolia no modo em que a fina torrente manava do céu enegrecido. Cada gota trepidava como pesados diamantes ao cair da vastidão azul e cinza, para amainar no chão duro como uma fruta madura que despenca de uma árvore.
O pêndulo do relógio a alertava cada segundo. O tic tac a lembrava a pulsação incansável de uma chaga aberta. Levantou-se.
Pegou um pano de feltro ilustrado com estrelas amarelas. Limpou capa móvel, cada livro, cada objeto. O porta-retratos de moldura extravagante estava ali, sobre a pilha de livros de Dostoiévski. Vislumbrava seu sorriso frágil, os olhos ambíguos e vazios. E ao seu lado estava ele, — a ferida se agitou em protesto — os lábios macios esticados sobre os dentes, o brilhoso cabelo encaracolado e o braço longo e lindo gentilmente pousado em seus ombros ossudos. Desviou os olhos. Não queria pensar nele — a ferida ardeu.
Foi até a cozinha tentando não pensar no único e solitário prato que habitava na mesa. Seu coração ardeu, como se o próprio sangue o corroesse por dentro. Seria assim agora? Sempre que comesse à mesa se lembraria.
Tentou não lembrar. Mas fracassou, no banheiro notou o xampu para bebês e lembrou-se. Na varanda viu a bicicleta — velha e nunca usada — recostada na parede e sua garganta se fechou como se um punho se trincasse em seu pescoço.
Entrou no quarto de olhos fechados. Era inútil. Ele — a ferida queimou — estava em toda parte. Ele era a decoração, o teto e o cheiro. Era seu lar e sua essência.
Mas era teimosa. Tão teimosa! Permaneceu lá, deleitando-se na lancinante agonia que era lembrar. Varreu e limpou, arrumou e reajeitou. Atingiu seu objetivo: cansou-se. As pernas e braços jaziam moles, sôfregos. Estava suja.
O banho foi longo, quente no início e frio quando os minutos se tornaram horas. Não se importou. A sujeira não era visível em sua pele dura e rígida, mas sentia-se torpe e asquerosa, imunda e impossível de ser lavada. Por quê?
Secou-se, a toalha nova arranhando ao invés de secar. Não se importou. Colocou um vestido leve e transparente, o contrário de sua alma. Passou o perfume que mais gostava, mas o cheiro que sentia era o do desprezo. Desprezo e cólera.
Sentou-se no sofá e tentou pensar no nada. Era difícil. Deitou-se quando dois longos minutos se passaram.
Virou-se de ponta a cabeça quando mais minutos se foram. Cochilou e acordou. Duas vezes. Em seus sonhos céleres via-se sozinha, só ela e as mariposas. As duas opacas e pouco apreciadas. Esperava-se que virassem borboletas belas e admiráveis, mas por culpa do destino não era assim. As mariposas eram como ela. Ela era como as mariposas.
Acordou num átimo, ofegante e suada. Tocou a pele úmida enojada e aliviada. Prendeu os cabelos longos que colavam-se na testa e pescoço. Limpou a pele grudenta na almofada que viera de Paris. Secou o canto dos olhos que minavam o mais quente dos líquidos. Sentia o sabor salgado delas. Suas companheiras devotas. Perguntava-se quando elas iriam embora. Como todos os outros se foram.
A campainha tocou. Soando como uma última badalada. Sentiu o estômago gelado como o mais frio dos gelos. E era doloroso como a mais dolorosa das dores. Era ele — maldita ferida! —. O coração bateu forte, galopando. Pesado. Como se trezentos gramas pesassem agora trezentos quilos. Puxando a carne fibrosa e pulsante para baixo. Expandindo-se além do normal. Oprimindo o estômago. O que era? Ânsia? Medo? Não sabia.
Avançou até a porta com furor, regozijando-se de um súbito arrojo que não soube descrever. Mas no momento que tocou o metal frio, tudo se esvaiu. A coragem súbita e dúbia e o ar que lhe enchiam os pulmões. Os dedos finos, esquálidos e feridos apertavam a maçaneta com uma veemência que se equiparava a um soldado segurando uma granada sem pino. A pele delicada estava friamente úmida, como a parte exterior de algo que tirara do congelador.
Mas não poderia adiar para sempre. Não. Não podia. Então, resgatando todo o ar que podia, escancarou a porta de uma vez só. Eleestava lá, certamente. Estagnado, inócuo, airoso como uma flor orvalhada durante a manhã fria. Não era o seu.
Ele não falou, só olhou a profundamente. Os olhos castanhos como a terra do seu canteiro de tulipas. Cílios garbosos, alongados, negros e espessos. Não era o seu. Os lábios finos e rubros, dentes tortos e reluzentes, pêlos grossos brotando embaixo dos lábios e nariz. Lembrava-se da textura, da sensação que tinha ao tocar sua pele fina, sua pele íntima.
O abraçou. Sentiu o calor acolhê-la. Quente, aconchegante. Não era o seu; Olhou para o rosto, amplo, maravilhoso. Seu anjo-homem. Seu Adônis. Não era o seu. O sorriso formoso, franco, fresco. Não era o seu.
Não mais.
Quando separou os lábios — unidos pelo tempo que estiveram fechados — ressequidos e sem vida, a voz simplesmente não saiu. Agoniada, estava sufocada pelas palavras que tanto evitara. As palavras costumavam galgar em sua língua. Desesperadas. Ansiando serem proferidas. Podia ouvir o som da própria voz, gritando, gemendo, sussurrando em seu ouvido, em sua mente, em seu cerne.
-Diga.
-Só diga. Por favor.
-Não quero.
-Não suporto.Não mais.
Ele ficou confuso. Seu anjo. Pegou seus ombros, fechando os dedos longos e fortes em seus braços. Sentiu-se suja. Desviou o olhar, mas os dedos novamente tocaram sua pele, segurando o queixo. Mantendo-o sob a visão perscrutadora. Tudo que não queria. Mas não evitou. Olhou no fundo da íris brilhosa e rútila. Devia aquilo a ele, devia muito mais. Mas era a única coisa que podia lhe dar. Aquilo e nada mais. Então sussurrou. Numa voz que mais parecia um suspiro:
— Precisamos conversar. — E seu coração se esmagou sobre si mesmo quando percebeu que mais um anjo se amotinaria para banhar a terra com lágrimas frias.
Pegou um pano de feltro ilustrado com estrelas amarelas. Limpou capa móvel, cada livro, cada objeto. O porta-retratos de moldura extravagante estava ali, sobre a pilha de livros de Dostoiévski. Vislumbrava seu sorriso frágil, os olhos ambíguos e vazios. E ao seu lado estava ele, — a ferida se agitou em protesto — os lábios macios esticados sobre os dentes, o brilhoso cabelo encaracolado e o braço longo e lindo gentilmente pousado em seus ombros ossudos. Desviou os olhos. Não queria pensar nele — a ferida ardeu.
Foi até a cozinha tentando não pensar no único e solitário prato que habitava na mesa. Seu coração ardeu, como se o próprio sangue o corroesse por dentro. Seria assim agora? Sempre que comesse à mesa se lembraria.
Tentou não lembrar. Mas fracassou, no banheiro notou o xampu para bebês e lembrou-se. Na varanda viu a bicicleta — velha e nunca usada — recostada na parede e sua garganta se fechou como se um punho se trincasse em seu pescoço.
Entrou no quarto de olhos fechados. Era inútil. Ele — a ferida queimou — estava em toda parte. Ele era a decoração, o teto e o cheiro. Era seu lar e sua essência.
Mas era teimosa. Tão teimosa! Permaneceu lá, deleitando-se na lancinante agonia que era lembrar. Varreu e limpou, arrumou e reajeitou. Atingiu seu objetivo: cansou-se. As pernas e braços jaziam moles, sôfregos. Estava suja.
O banho foi longo, quente no início e frio quando os minutos se tornaram horas. Não se importou. A sujeira não era visível em sua pele dura e rígida, mas sentia-se torpe e asquerosa, imunda e impossível de ser lavada. Por quê?
Secou-se, a toalha nova arranhando ao invés de secar. Não se importou. Colocou um vestido leve e transparente, o contrário de sua alma. Passou o perfume que mais gostava, mas o cheiro que sentia era o do desprezo. Desprezo e cólera.
Sentou-se no sofá e tentou pensar no nada. Era difícil. Deitou-se quando dois longos minutos se passaram.
Virou-se de ponta a cabeça quando mais minutos se foram. Cochilou e acordou. Duas vezes. Em seus sonhos céleres via-se sozinha, só ela e as mariposas. As duas opacas e pouco apreciadas. Esperava-se que virassem borboletas belas e admiráveis, mas por culpa do destino não era assim. As mariposas eram como ela. Ela era como as mariposas.
Acordou num átimo, ofegante e suada. Tocou a pele úmida enojada e aliviada. Prendeu os cabelos longos que colavam-se na testa e pescoço. Limpou a pele grudenta na almofada que viera de Paris. Secou o canto dos olhos que minavam o mais quente dos líquidos. Sentia o sabor salgado delas. Suas companheiras devotas. Perguntava-se quando elas iriam embora. Como todos os outros se foram.
A campainha tocou. Soando como uma última badalada. Sentiu o estômago gelado como o mais frio dos gelos. E era doloroso como a mais dolorosa das dores. Era ele — maldita ferida! —. O coração bateu forte, galopando. Pesado. Como se trezentos gramas pesassem agora trezentos quilos. Puxando a carne fibrosa e pulsante para baixo. Expandindo-se além do normal. Oprimindo o estômago. O que era? Ânsia? Medo? Não sabia.
Avançou até a porta com furor, regozijando-se de um súbito arrojo que não soube descrever. Mas no momento que tocou o metal frio, tudo se esvaiu. A coragem súbita e dúbia e o ar que lhe enchiam os pulmões. Os dedos finos, esquálidos e feridos apertavam a maçaneta com uma veemência que se equiparava a um soldado segurando uma granada sem pino. A pele delicada estava friamente úmida, como a parte exterior de algo que tirara do congelador.
Mas não poderia adiar para sempre. Não. Não podia. Então, resgatando todo o ar que podia, escancarou a porta de uma vez só. Eleestava lá, certamente. Estagnado, inócuo, airoso como uma flor orvalhada durante a manhã fria. Não era o seu.
Ele não falou, só olhou a profundamente. Os olhos castanhos como a terra do seu canteiro de tulipas. Cílios garbosos, alongados, negros e espessos. Não era o seu. Os lábios finos e rubros, dentes tortos e reluzentes, pêlos grossos brotando embaixo dos lábios e nariz. Lembrava-se da textura, da sensação que tinha ao tocar sua pele fina, sua pele íntima.
O abraçou. Sentiu o calor acolhê-la. Quente, aconchegante. Não era o seu; Olhou para o rosto, amplo, maravilhoso. Seu anjo-homem. Seu Adônis. Não era o seu. O sorriso formoso, franco, fresco. Não era o seu.
Não mais.
Quando separou os lábios — unidos pelo tempo que estiveram fechados — ressequidos e sem vida, a voz simplesmente não saiu. Agoniada, estava sufocada pelas palavras que tanto evitara. As palavras costumavam galgar em sua língua. Desesperadas. Ansiando serem proferidas. Podia ouvir o som da própria voz, gritando, gemendo, sussurrando em seu ouvido, em sua mente, em seu cerne.
-Diga.
-Só diga. Por favor.
-Não quero.
-Não suporto.Não mais.
Ele ficou confuso. Seu anjo. Pegou seus ombros, fechando os dedos longos e fortes em seus braços. Sentiu-se suja. Desviou o olhar, mas os dedos novamente tocaram sua pele, segurando o queixo. Mantendo-o sob a visão perscrutadora. Tudo que não queria. Mas não evitou. Olhou no fundo da íris brilhosa e rútila. Devia aquilo a ele, devia muito mais. Mas era a única coisa que podia lhe dar. Aquilo e nada mais. Então sussurrou. Numa voz que mais parecia um suspiro:
— Precisamos conversar. — E seu coração se esmagou sobre si mesmo quando percebeu que mais um anjo se amotinaria para banhar a terra com lágrimas frias.
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