Ele acordava sozinho todos os dias. Ele Olhava o teto,
coçava os olhos, saia de sua cama, lavava o rosto, vestia suas roupas e seguia
para o trabalho. Parava na cafeteria. O café era para um, havia tempo que era
assim. Não havia bebidas de sabores diferentes à mesa, os filmes não precisavam
ser discutidos, nem a pizza disputada. Ele sentia um vazio no peito, era como
se tivesse um buraco ali, como se faltasse algo, se sentia em meio a trevas,
sob o julgo insuportável do silencio.
Ele
buscou abrigo na religião, ouviu dizer que muitas pessoas preenchiam todo
aquele espaço dentro de si com um Deus invisível. Ouviu dizer que o amor que
eles pregavam poderia suprir suas necessidades e que um espírito falaria com
ele quebrando o silencio. Mas, aquelas pessoas... Elas odiavam o amor, se o
amor não fosse como um livro antigo as dizia, eles gritavam que você merecia
queimar no inferno, ele nunca ouviu o espírito que deveria quebrar o silencio,
nem ao menos encontrou conforto no Deus autoritário. O seu vazio continuou
aberto. A solidão ainda era sua inimiga, não havia ninguém por perto.
Ele
tentou preencher aquele buraco com outra pessoa. Ele colocou alguém ali dentro.
Por um tempo deu certo, o novo morador o aquecia, por vezes o incendiava, o
silencio era quebrado por gritos extasiados de prazer. Ele conseguia fugir da
solidão, agora havia sempre alguém por perto. Ele se sentia feliz. Era o amor
da vida dele, era seu tudo, seu alimento... Até ontem. Ai o que eles chamam de
amor acabou. E quando queimou pela ultima vez, deixou o buraco maior, mais
frio, a solidão voltou em um abraço. O silencio agora gritava em sua mente. As
lagrimas molhavam o chão e o afundavam em um mar vazio. Outra vez ele estava
só.
Ele
continuou tentando, ele colocou amigos que passaram direto pelo buraco. Tentou
colocar quadros e músicas. Tentou comprar coisas. Tentou encher aquele buraco
com trabalho. Tentou fumar e quem sabe aquecer outra vez aquele vazio, tentou
beber e esquecer o buraco. Falhou em cada misera tentativa. Nada, nada
adiantava. A solidão ainda batia em sua porta todas as noites, o silencio agora
cantava músicas tristes em seu ouvido e ele pensou em preencher o buraco com a
morte.
Um dia
ele correu, tentou desesperadamente correr de tudo aquilo. E ele descobriu que
correndo no ângulo certo contra o vento o buraco faz um assovio engraçado. Ele
parou rindo, e pela primeira vez parecia livre. A solidão depois de tanto tempo
não incomodava, era uma velha amiga com que ele podia dançar ao som caprichoso
do silencio. E desde então ele é feliz com seu buraco no peito.

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