terça-feira, 14 de março de 2017

Simplicidade

     Faz muito tempo que não escrevo. Nos últimos meses me faltaram mais tempo que palavras. Talvez tenha faltado dedicação, atenção ao que se acumulava em mim ou haja certa desnecessidade de escrever. Pois é assim, sempre escrevi para espalhar tristeza, para dispersar, para que ela saia de mim, para que a dor se dilua no vento e não queira voltar. Sempre escrevi quando estava carregado, quando o mundo agarrava em minha garganta e eu precisava respirar, quando a asma enrolava suas mãos macias em meu pescoço e impedia meus pulmões de alcançar o ar. No entanto, tenho andado feliz no último ano, desde que te conheci, tenho sido egoísta, e tudo que tenho guardo para mim, e não espalho no papel, quanta tolice não escrever, afinal, o mesmo papel que dissipa a dor, eterniza o amor.
    
    Então estou aqui outra vez, deixando escorrer no papel parte de mim. Fazendo de cada letra um breve vislumbrar do que meus olhos veem, de cada frase um pingo do que transborda em mim, eternizando você em tinta, papel, pixels, dados e bytes. Cada texto desse eternizará nosso amor, ainda que ele por si não alcance a eternidade, cada ponto e vírgula aqui deixará viva para o mundo inteiro ler o que um dia nos encheu de tanta paz, de tanta inquietação, do misto inefável de sentimentos que desagua em todo o azul, diluído no mar, dissipado ao céus e precipitado como temporal calmo de gotas quentes e refrescantes, contraditório por si, confuso por nós, grande por ser amor, confortável por ser azul.

    Eu passei os últimos trinta minutos em meio a imagens e vídeos, apenas procurando um motivo para falar com você, algo que soasse como "olha que legal", e nos desse um assunto, não consegui. Você brotou com algo aleatório, uma oferta, um celular, e cá estamos nós, falando, e planejando, e raciocinando. E por mais simples e idiota que pareça, é isso, é simples. não deve haver artificialidade, o assunto vem, a necessidade também, e eu vejo a maravilha da simplicidade cotidiana.

    E em meio a seus sorrisos eu tenho descoberto que a simplicidade é bela. Que embora seja bom ter aventuras, alguns jantares e lanches mais caros, que seja legal uma festa, uma reunião com amigos ou uma viagem ou outra, a simplicidade é o que solidifica, é o que impede que uma briga ou mau estar decrete o fim, a simplicidade é o que alimenta o amor e não o deixa morrer de inanição. É um acordar ao seu lado, e nossos corpos entrelaçados, um lanche a dois. São seus olhos grandes a me vigiar, é o planejar, segurar grana, discutir por bobeira, me acostumar com sua pirraça, dividir comida e brigar enquanto faz isso, é te segurar no colo e ver você gritar enquanto ri. É te sentir adormecer em meu peito e te marcar em milhares de publicações no Facebook, é falar com você todos os dias, é não ter assunto num momento e no outro falar sobre qualquer coisa de forma infinita, é a intimidade. É ser toda essa complexidade inexplicável, de ser simplesmente azul, de não poder mensurar o que cabe num simples abraço.

Simplesmente, obrigado.  




sábado, 9 de julho de 2016

Avaliando-te

     -O que você viu em mim? - perguntou ela franzindo as sobrancelhas.
      Olhei-a intensamente, para cada detalhe, principalmente o rosto, onde sua boca estava. Aquela boca que escondia um sorriso às vezes alegre, às vezes malicioso, quando ela mordia o lábio em uma tentativa desastrosamente fofa de sensualizar, ou nas ocasiões em que ela fazia biquinho e revirava os olhos quando eu ouso chamá-la de fofa.
      E sempre que ela está pensativa seus olhos fixam-se no céu e sua expressão se suaviza, seus lábios sugerindo um sorriso preguiçoso. Nesse momento eu tenho a impressão de que nada no mundo poderia abala-la.
      Ah, não posso me esquecer das bochechas, as enormes e fofas bochechas que ela tem, que sempre ficam vermelhas quando eu fazia um elogio, me deixando com uma enorme vontade de aperta-las. Mas sempre me contenho por causa das suas ameaças de me dar um soco se eu fizer isso. E a mania que ela tem de passar as mãos no cabelo de cinco em cinco minutos (ou menos), e quando eu pergunto o porque dessa mania ela simplesmente respondia "É questão de 'buniteza'", me fazendo rir e comentar: "Você é uma montanha-russa em forma de cachos, minha querida."
      -Não posso te dizer - respondo sorrindo - não quero que você se apaixone por si mesma.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Bailarinos anônimos

Casais são casais em qualquer idade.
Hoje, quando voltava pra casa, deparei-me com uma cena belíssima. Em pleno ponto do ônibus um belo par ignorava os olhares curiosos e se perdiam num mundo só deles. Ela sorria e jogava seu charme enquanto ele, já tomado pelos feitiços da moça, olhava "embobecido", com aquela cara que todo homem faz quando está apaixonado. Ela três passos em uma curtíssima corrida, como se dicesse "Estou fugindo. Está me perdendo. Estou escorregando de seus braços bobinho". O rapaz, também com três curtos passos a toma nos braços, "Não tão rápido moça, não se esquive assim, você só escorregou dos meus braços para cair em minha boca".
  Era uma cena comum, mas "o amor transforma" não é? Eu via uma bela apresentação de balé, os passos, os olhares, a sincronia dos corpos, dos sorrisos e que sorrisos, estendiam-se da boca e tomavam os olhos. Ela outra vez se desvencilhou com um riso sapeca nos lábios, rodopiou como uma bailarina e beijou o ar. Tudo só para cair outra vez nos braços de seu amado.
Ele prontamente lhe deu sustento, e num beijo final se despediram. E você pode pensar que me refiro a jovens na flor da idade, ou até mesmo a algum casal de proeminentes dançarinos. Engana-se.
Ele. 56 anos. Trabalha num escritório ali perto. Tem problemas na coluna. Falta-lhe os cabelos.
Ela. 49 anos. Cabeleireira. Reclama de dores nas pernas. O brinco esquerdo faltava algumas "pedras".

   Porém, casais são casais em qualquer idade. O amor transforma a todos nós em bailarinos anônimos e sorridentes.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Notas sobre uma Abelha II

Ele sabe que não é uma pessoa fácil. Não tem a menor intenção de se iludir quanto a isso, seu enorme ego infla-se e o envolve em uma bolha de proteção baseada em orgulho e autossuficiência que parece funcionar bem. Ele sente que isso afasta as pessoas, que seja, ele gosta de acreditar que não precisa delas.  

Ela por outro lado, se apresenta como um doce mistério, uma oceano profundo e inexplorado, cheia de surpresas, dona de uma inconstância soberana, que ao sabor do vento muda suas águas com uma naturalidade ímpar, ela o afoga, se afoga, invade tudo.

Ele está na janela, pensando como deixou acontecer. Ele queria fumar um cigarro. Não pode, depois de se afogar tantas vezes, seus pulmões inundados de água salgada não suportam a fumaça, e seu nariz cansado se recusa a funcionar ante a fétida nuvem negra que carrega a morte. Está frio, ele continua olhando pela janela, as águas estão agitadas, tanto quanto o cérebro do rapaz, a ponta de suas narinas parece se metamorfosear para cubos de gelo, seus olhos fitos no horizonte observam o balançar das árvores, a lua excelsa sobre elas, e o mar, tão irrequieto quanto o interior dela.  

Ela, não sei o que ela faz.
           
           Ele pega um cerveja, uma música toca em seus fones de ouvido, como uma trilha sonora para alinhar seus pensamentos, não parece dar certo, a melodia que invade seus ouvidos é bela e harmônica, as ideias do rapaz não. O vidro encontra seus lábios, o líquido gelado desce por seu interior quente, ele suspira. Pela primeira vez ele está... ele não sabe, não é bom em definir sentimentos, seu signo de fogo dorme e aquilo não se assemelha a raiva, parece cedo para sentir-se triste, talvez seja o mau do século, cansaço. Talvez seja uma grande mistura, uma bagunça de sentimentos simétrica com o “ser”, nada mais lógico, ele provavelmente, desastrado como só, derramou todos seus diferentes “sentires” e agora todos são uma grande mistura dentro dele, e ele sente de mais, sem saber o que.
           
             Ela teve outro dia cansativo. Pensou algumas vezes sobre o que aconteceu na outra noite. Deu espaço, encheu-se de dúvidas, repensou, pensou nas possibilidades e em todos aqueles “e se”. Decidiu por tentar, um oi tímido deixou seus dedos e encontrou os olhos sem foco dele, ela sentiu a ausência de calor, não era só o ambiente a sua volta, não vinha do ar, o frio emanava dele, talvez ele não brincasse quando disse que tinha um coração de gelo. Ela tentou uma segunda vez, ele respondeu, seu ar era de ironia, aquele maldito ar insuportável de superioridade e ironia. Ela repensou, e os “e se” perpassaram por sua cabeça, ele ainda olhava para o mar, ela era o próprio oceano.
                
               Ele esperava algo diferente. Não. Ele não sabia o que esperava. E embora odiasse o fato, os “e se” também passaram por sua cabeça. Ele afastou os pensamentos, bebeu outro gole de cerveja, respirou fundo, pensou em tudo, calou-se, não era hora de falar.  Ele disse que não estava bem, sua cabeça doía, um dia longo chegava ao fim, muito mais que o estopim da noite passada, sua mente se preocupava com outras coisas, seu corpo padecia por outros atos, sua energia era sugada por outras responsabilidades, ela ocupava 90% dos pensamentos dele, mas, provável que não fosse culpada por 10% daquele estado. Ele queria abraça-la, vê-la sorrir e dormir ao seu lado. Estava frio, e talvez seu coração gelado encontrasse conforto dentro do oceano. Ele se despediu, disse que precisava dormir. Desejou um sincero boa noite.
               
               Ela respondeu. Desejou o mesmo.
             
           Ele terminou a cerveja, deitou-se, olhou para o teto e sorriu. Ele odiava a indiferença dela, odiava sua indecisão, odiava o jeito com que ela dizia querer vê-lo e depois simplesmente desistia, odiava a distancia entre eles, odiava quando ela do nada ficava pensativa e insinuava um fim, quando ela se deixava tomar pelas incertezas. Ele percebeu que odiava muitas coisas nela. Mas, no meio da bagunça, já não sabia quanto de amor havia naquele ódio, no entanto, poderia jurar que não era pouco. Seus olhos se fecharam. Ele dormiu em relativa paz.
                
              Ela? Não sei como ela dormiu. 
         
         Ele acordou mais centrado. Precisava escrever, era quando toda a bagunça ganhava algum sentido. Escrever permitia que ele vencesse um pouco sua dificuldade de se expor, era como uma radiografia metafísica. Uma forma de tentar se entender e de ajudar os outros a entendê-lo. Claro que talvez ele dramatizasse de mais as coisas, provavelmente sua mania de dar um ar literário para a vida não era lá tão boa, talvez sua literatura fosse ruim... Contudo, ele acreditava sinceramente que tudo poderia ser história, que quando se escreve a tinta que mancha o papel é seu próprio sangue, que parte de sua própria essência se fixa para sempre naquelas palavras, e é por isso que as palavras são arte, e que a arte era chave para a eternidade, não a divina, a dos homens: Ars longa, vita brevis.
             
          E por isso ele escreveu. Não para ser eterno, apenas porque estava muito cheio de si, e precisava se colocar no papel, para fazer-se compreensível, para justificar suas quimeras, fantasiar seus temores, para não se afogar em si, para cristalizar no tempo, seus afetos, suas duvidas e seus amores. Ele não queria que eles fossem algo breve, porque ela, de forma relativamente constante, dava-lhe uma parcela da eternidade.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Notas Sobre Uma Abelha -- Nota I

Ela é toda a imensidão do oceano dentro de um aquário.

Encanta o desdobra-se em ser.  Ela é todo o poder do mar preso em um frágil aquário de cristal, um oceano inteiro refém da delicadeza do reluzir e do transparecer.  Você pode entender? Compreende o fato de ela ser oceano? Não é uma metáfora vazia. De longe é silencio, e por dentro é interrogação, aquele lugar que acolhe e amedronta ao mesmo tempo, ela é contradição e eu realmente não sei explicar o que me diz aquele olhar. Ela é do tipo que cala, percebo que palavra alguma pode descrever a profundeza daqueles olhos, daquela frágil existência, ela é agua e ar, é prisão transparente e todo azul do mar, é liberdade de evaporar e correr pelos céus e precipitar no mar, um paradoxo azul, profundo e molhado.

E eu, como agir? Dentro deste cenário, sou apenas um barquinho a deriva, sem rima, sem vida, e que de tão pequeno não entende como pode fazer diferença na imensidão daquelas águas. Ela tem um ar de quem precisa ser salva, não da poluição ou da pesca ilegal, mas dela mesma, pois ela se afoga nas suas próprias águas, ela enjoa e tem refluxo do próprio movimento que lhe cede vida. Consegue compreender o que digo? Ela é um ser que tira de dentro de si o sim e o não; ela é o cais dentro do caos; ela é a semente do seu próprio fruto. Talvez eu esteja condenada por tentar decifrá-la com essas ínfimas sílabas, mas eu precisava tentar, pois estar junto dela é entender a nossa grande insignificância diante da inefável vida que existe independente da gente. Não somos nada. E eu tenho certeza disso cada vez que a vejo morrer aos poucos, é como ver o oceano atlântico secar à conta-gotas. Devastador. Porém, tudo isso muda quando ela sorri e por um momento eu deixo de ouvir a bomba-relógio que é o seu coração; quando ela sorri parece que vai sair tulipas e orquídeas de dentro dela. Seu sorriso afasta as tempestades e só dá espaço para o cultivo; ela é terra fértil e com aqueles olhos que também sorriem, nem que seja por um breve sopro, tudo é capaz de florescer. E ali, naquele pequeno espaço entre a vida e a morte, a maré se torna palpável, vibrante e envolvente.

E então ela evapora por meus dedos e se torna ar, e do meu barco vejo-a distante sem que a possa alcançar, enxergo-a como nuvem nos céus em suas infindas formas a brincar. Aqui de baixo, seguro aponto e brinco de adivinhar qual o próximo contorno ela tomará. Nuvem até ser vento, e minhas velas assoprar, me empurrando pra longe, pra dentro do seu mar. É vento até ser chuva, é chuva até ser tempestade, tempestade até ser onda e meu barco afundar.  

E náufrago, sigo a deriva em teu mar, procurando ilha ou porto em que possa repousar, admirando o teu antagonismo, a completude de ser oceano e ar, a exatidão de ser peixe livre presa no aquário.  

quinta-feira, 24 de março de 2016

VI

Ha quase um mês atrás eu roubei um beijo
desde então, ela vem me roubando

Diante da tela, sorriso
No dia a dia, pensamento
Diante do mar, a paz
Na sombra, o fogo
Diante do por do sol, os olhos

Hoje ela nem foi sutil
Não me roubou lentamente,
Não se intimidou com os olhos atentos da lua
tão pouco, pelo vigiar do mar.

Foi de uma vez. Mão no peito.
Assalto.
Sem reação. Bate tão rápido.
Passe para cá esse coração.

Agora eu me pergunto:
O que mais ela pode levar
De alguém que só queria um beijo?

sábado, 5 de março de 2016

Do(r)pamina

Sou prisioneira do meu vício
Me mata, me consome por dentro
Me deixa alucinada.
Imagens que jamais irão acontecer
Aquele vazio que eu tento preencher com você
Só mais um trago, eu juro!
"É apenas uma viagem", você sussurra.
Meu vício por você me deixa cega
Não consigo raciocinar
Você faz a minha cabeça zunir
Meu corpo queima de excitação
Eu estou chapada de você.