Era
madrugada quando você me procurou revoltada com ele. “Como ele pode?”. Descreveu-me
o acontecido, quis falar mal do sujeito, e depois quis defendê-lo. Eu ri.
Disse: “amiga, o erro foi seu. Se envolveu de mais.”. Um veredicto duro a
priori, contudo real. Você entrou no jogo, apostou e perdeu. Não foi um
julgamento, foi uma análise da situação. Porque veja bem, a vida tem dessas
coisas mesmo, a gente se envolve sem querer, se apaixona do nada, rápido,
silencioso e mortal, é como ser apunhalado por um assassino profissional
escondido nas sombras.
E no fim das contas vocês nem tinham algo
serio, e era um misto de ciúmes e frustração. Eu ri outra vez. Queria te
abraçar e te fazer rir comigo. Ai eu analisei cada fato, e sussurrei aquilo que
sua paixão não te deixava ver. Você me disse “Eu to triste”, um amigo normal
mandaria você para com isso, levantar a cabeça, esquecer ele, beber umas e ir
para uma festa. Mas, eu nunca fui normal, “Tudo bem, você está certa, fique
triste. Você tem esse direito. Deite a cabeça no travesseiro e chore, não por
ele, ele não merece, chore apenas por estar triste. Mas me prometa que quando a
tristeza quiser ir embora você vai deixar, Promete que não vai segurar no pé
dela e pedir para ela ficar.” Porque a gente tem dessas coisas, a gente se
apaixona pela tristeza, e quer dormir de conchinha com ela, a gente trás café
da manha na cama, almoço e jantar, ai de um pequeno mal necessário ela cresce e
se torna maior que a gente.
No fim de tudo a gente não
decidiu muita coisa, você defendia e acusava o rapaz. Eu disse as palavras de
um velho poeta para você. “Relaxa, isso tudo pode ser paixão, mas pode ser uma
puta frescura também”. Você riu. Eu também ri. Ai a gente percebeu que você
estava acelerando as coisas, se preocupando com a chuva de daqui um mês. Disse
para você ficar calma, esperar o próximo movimento no tabuleiro. Parar de se
desesperar e analisar o contexto.
No fim você estava mais
calma. Eu sorri feliz quando você me agradeceu por te ouvir. Eu sorri porque a
vida é uma coisa muito estranha mesmo, me sentia como um médico que podia
amenizar a dor de todos, menos a própria.
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