segunda-feira, 25 de abril de 2016

Notas Sobre Uma Abelha -- Nota I

Ela é toda a imensidão do oceano dentro de um aquário.

Encanta o desdobra-se em ser.  Ela é todo o poder do mar preso em um frágil aquário de cristal, um oceano inteiro refém da delicadeza do reluzir e do transparecer.  Você pode entender? Compreende o fato de ela ser oceano? Não é uma metáfora vazia. De longe é silencio, e por dentro é interrogação, aquele lugar que acolhe e amedronta ao mesmo tempo, ela é contradição e eu realmente não sei explicar o que me diz aquele olhar. Ela é do tipo que cala, percebo que palavra alguma pode descrever a profundeza daqueles olhos, daquela frágil existência, ela é agua e ar, é prisão transparente e todo azul do mar, é liberdade de evaporar e correr pelos céus e precipitar no mar, um paradoxo azul, profundo e molhado.

E eu, como agir? Dentro deste cenário, sou apenas um barquinho a deriva, sem rima, sem vida, e que de tão pequeno não entende como pode fazer diferença na imensidão daquelas águas. Ela tem um ar de quem precisa ser salva, não da poluição ou da pesca ilegal, mas dela mesma, pois ela se afoga nas suas próprias águas, ela enjoa e tem refluxo do próprio movimento que lhe cede vida. Consegue compreender o que digo? Ela é um ser que tira de dentro de si o sim e o não; ela é o cais dentro do caos; ela é a semente do seu próprio fruto. Talvez eu esteja condenada por tentar decifrá-la com essas ínfimas sílabas, mas eu precisava tentar, pois estar junto dela é entender a nossa grande insignificância diante da inefável vida que existe independente da gente. Não somos nada. E eu tenho certeza disso cada vez que a vejo morrer aos poucos, é como ver o oceano atlântico secar à conta-gotas. Devastador. Porém, tudo isso muda quando ela sorri e por um momento eu deixo de ouvir a bomba-relógio que é o seu coração; quando ela sorri parece que vai sair tulipas e orquídeas de dentro dela. Seu sorriso afasta as tempestades e só dá espaço para o cultivo; ela é terra fértil e com aqueles olhos que também sorriem, nem que seja por um breve sopro, tudo é capaz de florescer. E ali, naquele pequeno espaço entre a vida e a morte, a maré se torna palpável, vibrante e envolvente.

E então ela evapora por meus dedos e se torna ar, e do meu barco vejo-a distante sem que a possa alcançar, enxergo-a como nuvem nos céus em suas infindas formas a brincar. Aqui de baixo, seguro aponto e brinco de adivinhar qual o próximo contorno ela tomará. Nuvem até ser vento, e minhas velas assoprar, me empurrando pra longe, pra dentro do seu mar. É vento até ser chuva, é chuva até ser tempestade, tempestade até ser onda e meu barco afundar.  

E náufrago, sigo a deriva em teu mar, procurando ilha ou porto em que possa repousar, admirando o teu antagonismo, a completude de ser oceano e ar, a exatidão de ser peixe livre presa no aquário.  

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