quarta-feira, 25 de maio de 2016

Notas sobre uma Abelha II

Ele sabe que não é uma pessoa fácil. Não tem a menor intenção de se iludir quanto a isso, seu enorme ego infla-se e o envolve em uma bolha de proteção baseada em orgulho e autossuficiência que parece funcionar bem. Ele sente que isso afasta as pessoas, que seja, ele gosta de acreditar que não precisa delas.  

Ela por outro lado, se apresenta como um doce mistério, uma oceano profundo e inexplorado, cheia de surpresas, dona de uma inconstância soberana, que ao sabor do vento muda suas águas com uma naturalidade ímpar, ela o afoga, se afoga, invade tudo.

Ele está na janela, pensando como deixou acontecer. Ele queria fumar um cigarro. Não pode, depois de se afogar tantas vezes, seus pulmões inundados de água salgada não suportam a fumaça, e seu nariz cansado se recusa a funcionar ante a fétida nuvem negra que carrega a morte. Está frio, ele continua olhando pela janela, as águas estão agitadas, tanto quanto o cérebro do rapaz, a ponta de suas narinas parece se metamorfosear para cubos de gelo, seus olhos fitos no horizonte observam o balançar das árvores, a lua excelsa sobre elas, e o mar, tão irrequieto quanto o interior dela.  

Ela, não sei o que ela faz.
           
           Ele pega um cerveja, uma música toca em seus fones de ouvido, como uma trilha sonora para alinhar seus pensamentos, não parece dar certo, a melodia que invade seus ouvidos é bela e harmônica, as ideias do rapaz não. O vidro encontra seus lábios, o líquido gelado desce por seu interior quente, ele suspira. Pela primeira vez ele está... ele não sabe, não é bom em definir sentimentos, seu signo de fogo dorme e aquilo não se assemelha a raiva, parece cedo para sentir-se triste, talvez seja o mau do século, cansaço. Talvez seja uma grande mistura, uma bagunça de sentimentos simétrica com o “ser”, nada mais lógico, ele provavelmente, desastrado como só, derramou todos seus diferentes “sentires” e agora todos são uma grande mistura dentro dele, e ele sente de mais, sem saber o que.
           
             Ela teve outro dia cansativo. Pensou algumas vezes sobre o que aconteceu na outra noite. Deu espaço, encheu-se de dúvidas, repensou, pensou nas possibilidades e em todos aqueles “e se”. Decidiu por tentar, um oi tímido deixou seus dedos e encontrou os olhos sem foco dele, ela sentiu a ausência de calor, não era só o ambiente a sua volta, não vinha do ar, o frio emanava dele, talvez ele não brincasse quando disse que tinha um coração de gelo. Ela tentou uma segunda vez, ele respondeu, seu ar era de ironia, aquele maldito ar insuportável de superioridade e ironia. Ela repensou, e os “e se” perpassaram por sua cabeça, ele ainda olhava para o mar, ela era o próprio oceano.
                
               Ele esperava algo diferente. Não. Ele não sabia o que esperava. E embora odiasse o fato, os “e se” também passaram por sua cabeça. Ele afastou os pensamentos, bebeu outro gole de cerveja, respirou fundo, pensou em tudo, calou-se, não era hora de falar.  Ele disse que não estava bem, sua cabeça doía, um dia longo chegava ao fim, muito mais que o estopim da noite passada, sua mente se preocupava com outras coisas, seu corpo padecia por outros atos, sua energia era sugada por outras responsabilidades, ela ocupava 90% dos pensamentos dele, mas, provável que não fosse culpada por 10% daquele estado. Ele queria abraça-la, vê-la sorrir e dormir ao seu lado. Estava frio, e talvez seu coração gelado encontrasse conforto dentro do oceano. Ele se despediu, disse que precisava dormir. Desejou um sincero boa noite.
               
               Ela respondeu. Desejou o mesmo.
             
           Ele terminou a cerveja, deitou-se, olhou para o teto e sorriu. Ele odiava a indiferença dela, odiava sua indecisão, odiava o jeito com que ela dizia querer vê-lo e depois simplesmente desistia, odiava a distancia entre eles, odiava quando ela do nada ficava pensativa e insinuava um fim, quando ela se deixava tomar pelas incertezas. Ele percebeu que odiava muitas coisas nela. Mas, no meio da bagunça, já não sabia quanto de amor havia naquele ódio, no entanto, poderia jurar que não era pouco. Seus olhos se fecharam. Ele dormiu em relativa paz.
                
              Ela? Não sei como ela dormiu. 
         
         Ele acordou mais centrado. Precisava escrever, era quando toda a bagunça ganhava algum sentido. Escrever permitia que ele vencesse um pouco sua dificuldade de se expor, era como uma radiografia metafísica. Uma forma de tentar se entender e de ajudar os outros a entendê-lo. Claro que talvez ele dramatizasse de mais as coisas, provavelmente sua mania de dar um ar literário para a vida não era lá tão boa, talvez sua literatura fosse ruim... Contudo, ele acreditava sinceramente que tudo poderia ser história, que quando se escreve a tinta que mancha o papel é seu próprio sangue, que parte de sua própria essência se fixa para sempre naquelas palavras, e é por isso que as palavras são arte, e que a arte era chave para a eternidade, não a divina, a dos homens: Ars longa, vita brevis.
             
          E por isso ele escreveu. Não para ser eterno, apenas porque estava muito cheio de si, e precisava se colocar no papel, para fazer-se compreensível, para justificar suas quimeras, fantasiar seus temores, para não se afogar em si, para cristalizar no tempo, seus afetos, suas duvidas e seus amores. Ele não queria que eles fossem algo breve, porque ela, de forma relativamente constante, dava-lhe uma parcela da eternidade.

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